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Advogado com atuação exclusiva na área de direito médico e da saúde. Especialista em Responsabilidade Civil na Área da Saúde pela FGV-SP. Pós-graduado em Direito Médico e da Saúde. Coordenador do curso de Pós-graduação em Direito Médico da Escola Paulista de Direito (EPD). Presidente da Comissão de Direito Odontológico e da Saúde da OAB-Santana/SP. Docente convidado dos cursos de Especialização em Odontologia Legal da FORP-USP (Ribeirão Preto/SP), da ABO-GO (Goiânia), da ABO-RS (Porto Alegre) e da FO-USP (São Paulo/SP). Docente convidado da FUNDECTO no curso de Perícias e Assessorias Técnicas em Odontologia. Docente convidado do curso de Bioética e Biodireito do HCor. Docente convidado de cursos de Gestão da Qualidade em Serviços de Saúde (Einstein, Inspirar e UNISA). Especialista em Seguro de Responsabilidade Civil Profissional para Médico, Cirurgião-dentista, Hospital e Laboratório. Autor da obra: "COMENTÁRIOS AO CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA - Resolução CFM nº 1.931/2009". Mestrando em Odontologia Legal e Deontologia pela UNICAMP (FOP).

sábado, 12 de novembro de 2016

Espiritualidade é uma das dimensões a serem valorizadas em fim de vida

No contexto da saúde, espiritualidade remete-se a questões como significado e sentido da vida

A aproximação da fase final da vida de pacientes pode levar médicos e demais membros da equipe de saúde a dilemas sobre como lidar com pessoas “diferentes” do que até então aparentavam, em suas crenças, universo familiar e vínculos com amigos. Assim, torna-se essencial atentar-se à dimensão espiritual, incluída na definição de “bem-estar” da Organização Mundial de Saúde (OMS), ao lado das esferas física, social e mental.

Segundo a OMS, no contexto de saúde, a espiritualidade remete a questões como o significado e o sentido da vida, não se limitando a qualquer tipo específico de prática religiosa. Refere-se, inclusive, à chamada “espiritualidade laica”, que enfatiza o desenvolvimento pessoal do indivíduo, em vez de eventual relação com “o divino”. Aqui, ir além do aspecto biológico é um grande desafio aos profissionais de saúde.

Nesse sentido, a posição trazida por alguns campos, como o dos cuidados paliativos, sugere aos que atuam em fase final de vida avaliar a importância da “história espiritual” do paciente e de seus familia­res. Ao ignorar tal etapa, pode-se “banalizar a experiência legítima daqueles que morrem e impedir um atendimento adequado”, escreveu o geriatra Luis Alberto Saporetti, no livro Cuidado Paliativo, editado pelo Cremesp.

Sentimento humanitário

A proximidade do fim da vida é o “momento em que tendemos a perdoar os entes mais próximos com quem estávamos rompidos e a valorizar um sentimento humanitário – e até cósmico – por tudo o quanto existente”, considera o psiquiatra Mauro Aranha, presidente do Cremesp. Entre os que encaram a morte como parte da vida (veja box ao lado) surge até “a sensação de pertencimento à ‘comunidade’ humana”, completa o raciocínio a geriatra e paliativista Ana Cláudia Arantes.

É claro que nem todos reagem da mesma maneira, em época tão delicada. “Alguns pacientes idosos e/ou materialistas não chegam a demonstrar interesse pelo sentido da vida”, explica Maria Júlia Kovács, coordenadora do Laboratório de Estudos Sobre a Morte (LEM), do Instituto de Psicologia da USP. “Como o médico é frequentemente questionado sobre tais assuntos, cabe a ele incentivar o que é mais importante aos pacientes. Descrença e desprezo pela busca espiritual podem ser sentidos por eles como rejeição”, ressalta.

Entre as dificuldades para abordar a questão espiritual em final de vida figura a ignorância do paciente quanto à própria finitude. Nessa superação, uma relação médico-paciente construída em confiança, empatia e na liberdade para se abordar temas difíceis, pode ser peça-chave para que desejos sejam colocados em prática e convicções, reforçadas, antes do fim.

Morte. Inimiga?

Apesar de presente implícita ou explicitamente na formação médica, a morte continua sendo te­ma espinhoso a boa parte dos profissionais. “Foi nossa primeira professora, nas aulas de anatomia e patologia, porém, continuamos a considerá-la nossa pior inimiga”, pondera Ana Arantes. “Não adianta lutar contra a morte, pois sempre vamos perder”.

O sucesso, diz, pode ser fazer com que os pacientes e seus familiares superem medos comuns em relação à morte, como a dor e o abandono. Para evitar ou minimizar a dor física, a Medicina Paliativa, área de atuação médica desde 2011, tem disponível uma gama de medicamentos e procedimentos. Equipes multiprofissionais deixam claro aos atendidos que sempre terão algum tipo de tratamento, por quanto tempo necessitarem.

Contudo, é necessário sensibilidade para manejar dois temores comuns nessa fase, que envolvem o distanciamento de entes queridos e a insegurança quanto à fé. Em ambos os casos, é possível ajudar, como explica Ana Arantes, citando o caso do paciente “M”, diagnosticado com sarcoma aos 11 anos de idade; dado como curado, após tratamento quimioterápico e radioterápico, mas que apresentou metástase cerebral, aos 13. “M. sabia que tudo tinha sido feito pela equipe. Aceitava a morte, mas não se apaziguava, pela preocupação com a família, e especialmente, devido à inconformidade da mãe, bastante religiosa, que acusava o pai de ter ‘pouca fé’”, conta Ana Arantes. Para superar tais conflitos, o médico assistente aconselhou o paciente a “pedir autorização” aos pais, antes de partir; agradecê-los por tudo; e dizer que a sua vida estava sendo entregue “ao Criador”.

Admitir, valorizar e incluir no atendimento a dimensão espiritual não solucionou o padecimento de todos pela perda inevitável. Mas “tornou-se essencial na elaboração do processo de morte, de forma bem mais calma e assertiva”, diz Ana Arantes.

“Boa morte” e “má morte”

Os conceitos de “boa morte” e “má morte” adquiriram vulto na idade medieval, quando a morte não era vista como um evento, mas um processo a ser vivido.

Tinha boa morte os que “se preparavam” de maneira adequada para o “além”. Advertido por quem prestava o cuidado de que estava em seus minutos finais, o moribundo cristão submetia-se a rituais, como deitar-se de frente para o céu, com as mãos cruzadas sobre o peito. Se não houvesse tempo hábil para isso, a pessoa experimentaria uma “má morte”, vista como “vil” e “vergonhosa”.

Sedação paliativa

Uma das etapas importantes no processo de morrer corresponde à despedida de entes queridos – algo capaz de ser dificultado ou impedido, sem o emprego correto da chamada “sedação paliativa”. “De acordo com a minha experiência, quanto maior o índice de sedação paliativa, pior o nível de cuidados”, opina Ana Arantes. “É proporcional”.

Segundo ela, propiciar, quando possível, um adequado alívio de sintomas pode evitar o uso indiscriminado de sedação, “nada compatível com um fim de vida digno”.

Fonte: CREMESP